Olhar Mais de Perto
A virada de chave
Por Rafael Damasceno Generoso
Sempre gostei de ficar nos bastidores. Quanto mais ao fundo, melhor. Prefiro estar atrás das câmeras, longe dos holofotes. Apesar de ser diretor geral do Instituto Ação Pela Paz, confesso que, por muito tempo, carreguei esse crachá como se ele nem devesse estar no meu peito. A Solange Senese (diretora executiva e cofundadora) é a grande âncora do Instituto, junto com o Jayme Garfinkel (presidente do conselho e cofundador) .
Quando fui convidado por ele para assumir estatutariamente a direção-geral, encarei aquilo como mais uma tarefa profissional, quase uma extensão do trabalho no escritório, no family office. Era algo que aparecia na agenda, a gente aceitava e seguia em frente.
No começo, eu via o Instituto exatamente assim: “mais uma coisa para tocar”. Mas, olhando para trás, percebo que minha história com o Ação Pela Paz vem de antes. Participei do nascimento do Instituto, há dez anos. Fui assistente do Luiz Paulo Horta de Siqueira (diretor geral do Ação Pela Paz entre 2015 e 2022), ajudei na construção do estatuto social, acompanhei de perto os primeiros passos.
Mesmo assim, eu pensava: o Jayme já faz tanta coisa. Ele mantém uma escola em Paraisópolis que atende cerca de mil crianças e jovens, de forma totalmente gratuita. Educação sempre me pareceu o caminho mais lógico. Então eu me perguntava: por que não investir só nisso? Por que ir para dentro de presídios, cuidar de pessoas privadas de liberdade?
A verdade é que eu não acreditava muito. Achava que seria uma causa difícil demais, talvez até improdutiva. Pensava que gastaríamos tempo, energia e ainda enfrentaríamos conflitos internos. Nos negócios, tudo é mais palpável: você vê resultados, números, metas, lucro. Isso acaba iludindo a gente. Dá a sensação de controle. E eu, no fundo, sempre fugi um pouco do que me tirava dessa zona de conforto.
Durante muito tempo, a Solange insistia: “vamos ao presídio, vamos conhecer”. Eu sempre adiava. Carioca que sou, daqueles que dizem “aparece lá em casa” sem nunca dar o endereço. Até que um dia não teve mais desculpa. Fui.
Na ida, percebi que estava com medo. Entrei tenso e, lá dentro, fiquei ainda mais. Mas, depois de uma, duas horas, algo começou a mudar. Fui me soltando, observando, ouvindo histórias, olhando nos olhos das pessoas. Em certo momento, me peguei pensando: “o que esse cara está fazendo aqui?”. Muitos já tinham passado do tempo de estarem ali. Era como uma fruta madura no pé: se não for colhida, vai cair e apodrecer. Perde-se a chance.
Quando saí, senti que tinha me escondido por tempo demais. Percebi que, por não acreditar de verdade, eu também não colaborava como deveria com o Instituto. Fazia por obrigação, não por convicção. A partir dali, algo virou uma chave dentro de mim. Passei a me identificar com a causa, a entender o sentido de tudo aquilo.
Hoje, assumi um compromisso real com esse trabalho. Venho toda segunda-feira. Não consigo estar aqui todos os dias, mas faço o possível para apoiar essa equipe incrível, que constrói projetos tão bonitos ao longo desses dez anos.
No fim das contas, percebo que quem mais ganhou por ser diretor-geral do Instituto não foi o Instituto comigo, fui eu com o Instituto. Ganhei em aprendizado, em visão de mundo, em humanidade.

