Troca de experiências

Instituto Ação Pela Paz promove encontro com unidades prisionais de São Paulo

Reunião levantou conhecimentos adquiridos durante e após a realização de projetos apoiados pelo Programa SEMEAR
Reeducandas durante projeto "Paz No Coração" - Foto: divulgação
Reeducandas durante projeto "Paz No Coração" - Foto: divulgação

No último dia 29 de outubro, a equipe do Ação Pela Paz reuniu representantes de unidades prisionais de diversas regiões do estado de São Paulo para uma troca de experiências. Esse encontro, o primeiro no formato, também serviu para analisar os impactos das iniciativas apoiadas pelo programa SEMEAR – Sistema Estadual de Métodos para Execução Penal e Adaptação Social do Recuperando – e realizadas ao longo dos últimos dois anos.

Entre 2020 e 2021, o Ação Pela Paz apoiou 58 projetos em 25 unidades prisionais diferentes, totalizando 3.648 vagas em formações e capacitação de diversos segmentos. Desse total, 11 projetos tiveram foco em jogos, contabilizando 2.766 participações.

Melhoria na disciplina, motivação e autoestima foram alguns dos resultados apontados nos monitoramentos executados. Além disso, as ações focadas em jogos revelaram maior cooperação entre os membros, respeito ao tempo de aprendizado do outro e diminuição do estresse causado pela pandemia de Covid-19.

Esse resultado é nítido para Eduardo Ventura, Diretor Técnico II de Trabalho e Educação da Penitenciária de Mairinque, local onde aconteceu um dos projetos. Com 10 reeducandos no papel de monitores, houve aumento do interesse atividades similares. Ele reforça que a inteiração entre os reclusos e aumento da paciência derivou numa diminuição de discussões dentro das celas, relatada pelos próprios reeducandos aos funcionários da unidade.

Evento aconteceu no dia 29 de outubro - Imagem / print: divulgação
Evento aconteceu no dia 29 de outubro - Imagem / print: divulgação

Outras 260 pessoas estiveram envolvidas em atividades ligadas à música, como os projetos “Música Para a Alma”, “Orquestrando Vidas”, “Vozes e Violão” e “O Som da Liberdade”, esse último com turmas desenvolvidas no Centro de Ressocialização de Sumaré. Para Rui Fernando de Oliveira, à frente do Setor de Trabalho e Educação da unidade, o projeto trouxe um diferencial para o CR, proporcionando mais calma e tranquilidade aos alunos.

Rui salientou que a unidade tem feito um trabalho importante de iniciação e continuação, no qual os alunos que avançam conseguem se capacitar e ajudar os demais membros em nível básico, mantendo o ciclo do projeto. Ele cita também que as oficinas trazem vários benefícios, como disciplina, tranquilidade, aprendizado, autoestima e motivação.

O lado psicossocial, muito importante para o exercício do autoconhecimento de quem está privado do convívio social, teve grande destaque nesse biênio. O projeto “Paz no coração, Liberdade na prisão” completou 31 edições, beneficiando 496 pessoas em cumprimento de pena.

Foto: divulgação
Foto: divulgação

Leandro Amaral, Agente de Segurança Penitenciário do CDP de Capela do Alto, revelou que, antes da implementação do projeto, tinha preocupações em como apresentar a proposta de um trabalho envolvendo meditação e espiritualidade aos policiais penais e aos próprios reeducandos. Temor passageiro. O que era receio virou satisfação. Hoje, com quase metade do pavilhão contemplado pelo projeto, Leandro afirma que é possível notar uma melhora nas relações entre profissionais da unidade e os presos. Além disso, a frequência e o baixo número de desistências também foram além das expectativas no CDP, que também possui turmas do “Semeando Sonhos”.

Para Daniella Reina, que conduziu este evento ao lado Rochelly Tatsuno, Neuda Martins e Dayane Bento, “essa foi uma oportunidade importante para a troca de experiências entre as unidades prisionais, gerando empatia entre pessoas que trabalham na mesma causa, mas que nunca tiveram a chance de conhecer outras iniciativas e atores engajados num só foco”.

Herança do bem


Nesse mesmo período foram realizados oito projetos de caráter profissionalizante, atendendo 126 presos. O efeito positivo abrange a melhora na motivação e na disciplina dos reeducandos. Além disso, existem dados de uma ampliação da perspectiva de futuro dos envolvidos e um aumento na procura de outros cursos de qualificação profissional.

Antes da pandemia, um curso destinado ao ensino do ofício de cabeleireiro, apoiado pelo Ação Pela Paz, já tinha formado mais de 300 pessoas na Penitenciária de Piracicaba. Cleide Coelho da Silva Santos, diretora de Reintegração e Atendimento em Saúde da unidade, recorda da força desse formato de capacitação.

Dentre vários que passaram pela capacitação, ela contou que recentemente teve notícias de José Silva*, um ex-participante que teve sua vida transformada por essa oportunidade. Hoje, fora do sistema prisional, ele consegue viver da atividade aprendida enquanto cumpria pena. Mas o próprio sustento não foi o único ponto que o egresso herdou do que aprendeu enquanto vivia em detenção. Atualmente, José dedica uma porcentagem de cortes gratuitos para pessoas que não possuem condições de pagar por seus serviços. Para ele, essa atitude é uma maneira de demonstrar a gratidão pela formação recebida no passado e que mudou o seu presente.

* nomes fictícios

Sobre o SEMEAR

Criado em 2014 pela Presidência do TJSP e pela Corregedoria Geral da Justiça, em parceria com o Governo do Estado, por meio da SAP e do Instituto Ação pela Paz, o Semear (Sistema Estadual de Métodos para Execução Penal e Adaptação do Recuperando) busca maior efetividade na recuperação dos presos e suas famílias.

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