Olhar Mais de Perto
Aprender a acreditar na reconstrução
Por Rodolfo Moreira Hojda dos Santos
Quando olho para a minha trajetória, percebo que três valores estiveram presentes desde cedo: família, educação e trabalho.
Cresci em uma família simples, na periferia de São Paulo. Não havia muitos recursos, mas havia pessoas que acreditavam que o estudo e o trabalho eram caminhos possíveis para construir oportunidades. Minha mãe, meus tios, professores, amigos e outras pessoas que cruzaram minha história ajudaram a formar essa visão de mundo.
Foi assim que comecei minha vida profissional ainda jovem. Meu primeiro emprego durou mais de treze anos. Ali aprendi disciplina, responsabilidade e a importância de construir algo no longo prazo. Ao mesmo tempo, fui ampliando meu repertório por meio dos livros, da música, do cinema, da universidade e das pessoas que conheci ao longo do caminho.
Anos depois, minha trajetória me aproximou do terceiro setor e, hoje, do Instituto Ação Pela Paz.
No Instituto, tenho compreendido com mais profundidade o que significa atuar com pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional. A reincidência criminal não pode ser explicada apenas por uma decisão individual, nem apenas pelas falhas das instituições. Ela está em uma zona mais complexa, onde escolhas, vínculos, oportunidades, responsabilização e pertencimento se cruzam.
Durante muito tempo, eu acreditava que a reconstrução de uma trajetória dependia somente de oportunidades concretas: estudo, trabalho, renda, qualificação profissional e fortalecimento de vínculos.
Continuo acreditando nisso.
Mas hoje compreendo, sobretudo que existe uma dimensão anterior.
A crença do sujeito na própria recuperação.
Não se trata de romantizar trajetórias marcadas por dor, erro ou violência. Também não se trata de retirar a responsabilidade individual de quem precisa responder por seus atos. Trata-se de reconhecer que nenhuma política de reintegração se sustenta se a própria pessoa não conseguir enxergar a possibilidade de construir uma vida diferente.
Ao longo da minha atuação, tenho visto homens e mulheres que, antes de precisarem de uma oportunidade externa, precisam reencontrar internamente a ideia de que ainda são capazes de escolher.
Escolher estudar.
Escolher trabalhar.
Escolher reparar.
Escolher pedir ajuda.
Escolher se afastar de antigos ciclos.
Escolher sustentar uma nova narrativa sobre si.
O trabalho do Ação Pela Paz me ajuda a compreender que a reintegração social não acontece apenas quando uma porta se abre do lado de fora. Ela começa também quando algo se reorganiza do lado de dentro.
Quando uma pessoa deixa de se perceber apenas pelo erro que cometeu.
Quando consegue assumir responsabilidade sem se reduzir ao próprio passado.
Quando entende que recuperar-se não é apagar a história, mas construir outra relação com ela.
É por isso que sigo acreditando na importância desse trabalho.
Porque família, educação e trabalho seguem sendo valores fundamentais.
Mas, no campo da justiça criminal, aprendi que eles precisam caminhar junto com algo igualmente decisivo: a possibilidade de o sujeito voltar a acreditar na própria capacidade de reconstrução.
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Edição final: Marcos Ferreira

