Olhar Mais de Perto

Entre mares e dores

Por Naamã Araújo Martinez Uzeda
Naamã - Foto: arquivo pessoal
Naamã - Foto: arquivo pessoal

Cresci entre as ondas de Copacabana e a dureza das calçadas. Sou o caçula de cinco irmãos, filho de artesãos baianos, e minha infância foi marcada por esse contraste. Éramos uma família unida e alegre, mas a realidade não dava trégua. Dormi muitas noites sob as marquises da Lagoa Rodrigo de Freitas. Lembro da humilhação de ser expulso de certos lugares e do alento de encontrar porteiros que nos ofereciam um café da manhã.

Aos 7 anos, o surfe entrou na minha vida e se tornou meu refúgio. No entanto, a tragédia familiar chegou cedo. Perdi um irmão para o crime, um golpe que poderia ter me derrubado, mas, naquele momento, me agarrei à prancha. Essa dedicação me levou a um documentário onde confessei meu maior sonho: conhecer o Havaí. O impossível aconteceu quando o apresentador Luciano Huck apareceu na minha porta e me levou para lá. Vi um mundo novo, tive oportunidades de ouro, mas eu ainda era um menino sem estrutura para sustentar aquele deslumbre.

Ao retornar ao Brasil, me perdi. Não foi por falta de aviso ou por necessidade extrema, foi pela ilusão do poder e pelas companhias que escolhi. Entrei para o tráfico e cheguei a ocupar cargos de liderança. O que parecia liberdade era, na verdade, um vazio destrutivo regado a drogas. Fui preso pela primeira vez ainda menor de idade. Ali, eu já sabia que estava no caminho errado, mas faltava maturidade para romper o ciclo.

Naamã com o skatista Kelly Slater - Foto: arquivo pessoal
Naamã com o skatista Kelly Slater - Foto: arquivo pessoal

Os anos seguintes foram de decadência. A euforia do crime deu lugar à depressão e ao arrependimento profundo. Eu carregava o peso de ser o menino que foi ao Havaí e que, agora, estava jogado na criminalidade. Minha segunda prisão, já adulto, foi o choque definitivo. Em liberdade, eu queria sair do crime, mas as portas do mercado de trabalho estavam fechadas e eu tinha filhos para sustentar. Acabei voltando para a vida que detestava.

A reviravolta final ocorreu de forma cinematográfica. Eu estava em casa quando ouvi pelo rádio do tráfico que o Luciano Huck estava na favela. Meu coração paralisou. Fiquei na dúvida se deveria aparecer, mas decidi ir. No meio da multidão, ele não me reconheceu de imediato, eu estava muito diferente. Quando finalmente nos olhamos e ele perguntou o que eu estava fazendo, fui sincero: disse que estava no tráfico. Ele me perguntou se eu queria sair. Naquele instante, respondi que sim com todo o meu corpo.

Naamã com seus alunos em praia do Rio de Janeiro - Foto: arquivo pessoal
Naamã com seus alunos em praia do Rio de Janeiro - Foto: arquivo pessoal

Fui resgatado com o apoio fundamental do Luciano e do José Júnior, do AfroReggae, que acreditaram em mim quando eu mesmo já não tinha crédito. Estou no AfroReggae há quase uma década. Hoje, sou um homem transformado e um pai presente para o Arthur e para a Helena. Não culpo meus pais pelas dificuldades que passamos, pois entendo que, às vezes, a vida nos impõe escolhas antes de estarmos prontos.

Atualmente, foco minhas energias na minha escolinha de surfe. Meu objetivo é formalizar um projeto gratuito para que as crianças da comunidade encontrem no mar a salvação que eu encontrei, sem precisar passar pelos desvios que quase me custaram a vida. Já ajudei a tirar pessoas do crime e sei que minha história serve de prova: o recomeço é difícil, mas é possível.

Assista aqui o episódio do programa Caldeirão do Huck, exibido na TV Globo em 2010. Na ocasião, Naamã conheceu o surfista estadunidense Kelly Slater.

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Edição final: Michel Mota e Marcos Ferreira

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