Olhar Mais de Perto
Mudando histórias
Por Maria de Lourdes Delgado Alves
Há mais de quatro décadas, uma jovem psicóloga de 22 anos atravessava os portões do sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul para iniciar uma caminhada que transformaria sua própria vida e a trajetória de inúmeras pessoas.
Recém-formada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá – UEM/PR, Maria de Lourdes Delgado Alves ingressou, em 1985, no sistema penitenciário sul-mato-grossense. Chegava preparada, movida por sonhos, conhecimento e disposição para servir. Naquele momento, talvez ainda não pudesse dimensionar a grandeza da história que começava a construir.
Desde os primeiros anos de atuação, compreendeu que, por trás de cada pessoa privada de liberdade, havia mais do que um processo, uma sentença ou uma pena a cumprir. Havia uma história, uma família, sofrimento, erros e consequências, mas também capacidades, talentos, sonhos e possibilidades de mudança.
Essa percepção orientou sua forma de atuar e, com o passar do tempo, transformou-se na convicção que guiaria toda a sua vida profissional: o sistema prisional não deve representar apenas o cumprimento de uma pena, mas também uma possibilidade concreta de reconstrução.
Foi a partir desse princípio que Maria de Lourdes Delgado Alves passou a dedicar-se, ao longo de mais de 40 anos de serviço público, à criação de condições para que pessoas privadas de liberdade pudessem estudar, trabalhar, cuidar da saúde, aprender uma profissão e preparar-se para retornar ao convívio social com novas perspectivas.
Para Maria de Lourdes Delgado Alves, a educação representa conhecimento, autonomia e possibilidade de escolha. O trabalho significa dignidade, responsabilidade e preparação para uma nova vida. A profissionalização, por sua vez, oferece instrumentos para que cada pessoa possa encontrar oportunidades reais no mundo do trabalho.
Da mesma forma, a reintegração social nunca foi apenas uma expressão presente nas normas da execução penal. Em sua trajetória, reintegrar sempre significou oferecer a alguém a oportunidade de escrever um capítulo diferente da própria história.
Essa visão orientou sua participação na criação e no desenvolvimento de projetos, programas e parcerias com órgãos públicos, empresas privadas, universidades, instituições da sociedade civil e profissionais comprometidos com a transformação social. Desde cedo, Maria de Lourdes Delgado Alves compreendeu que resultados dessa dimensão dependem de cooperação, diálogo e compromisso coletivo.
Por meio dessas iniciativas, muitas pessoas privadas de liberdade tiveram acesso ao estudo, ao trabalho, à saúde, à qualificação profissional e a oportunidades que talvez jamais tivessem encontrado. E, quando uma trajetória se transforma, os efeitos ultrapassam a vida de uma única pessoa: alcançam a família, a comunidade e as gerações seguintes.
Essa compreensão também se relaciona diretamente à sua formação acadêmica, marcada por uma busca permanente pelo conhecimento. Graduada em Psicologia, Bacharel e Licenciada pela UEM/PR, Maria de Lourdes Delgado Alves tornou-se também Bacharel em Direito pela UNIDERP/MS. Além disso, realizou especializações em Psicologia Jurídica, Gestão de Governo – Administração Pública pela UFMS, Tratamento Penal e Administração Penitenciária pela Anhanguera UNIDERP e Gestão em Saúde no Sistema Prisional pela FIOCRUZ/UFMS.
Esse percurso formativo ampliou e aprofundou a experiência construída diariamente no sistema penitenciário. Psicologia, Direito, gestão pública, saúde, direitos humanos, execução penal e tratamento penitenciário passaram a integrar uma mesma missão: buscar caminhos para que a execução da pena também pudesse criar possibilidades de transformação.
Com o passar dos anos, essa experiência consolidou-se em novas responsabilidades. Atualmente, como Policial Penal e Diretora de Assistência Penitenciária da AGEPEN/MS, Maria de Lourdes Delgado Alves atua na formulação, na gestão e na implementação de políticas destinadas às pessoas privadas de liberdade, mantendo vivos os princípios que orientaram o início de sua carreira.
Ao mesmo tempo, compartilha seu conhecimento em cursos de pós-graduação nas áreas de Direitos Humanos, Gestão Penitenciária, Saúde do Homem Encarcerado, Execução Penal, Políticas Públicas e Metodologia do Ensino Superior. Assim, sua experiência não permanece restrita aos espaços institucionais: alcança novas gerações de profissionais e continua contribuindo para o aprimoramento das políticas e práticas penitenciárias.
Essa trajetória profissional, entretanto, não pode ser compreendida separadamente de sua história pessoal. Ao longo dos anos, trabalho, família e relações construídas no caminho passaram a formar uma mesma história de compromisso, cuidado e dedicação.
Maria de Lourdes Delgado Alves é mãe de dois filhos do ventre e de muitos filhos do coração. Durante a vida, acolheu, orientou, incentivou e ajudou inúmeras pessoas. Algumas chegaram por meio do trabalho; outras, pelas relações construídas ao longo dos anos. Muitas permaneceram em seu coração como parte de uma família ampliada pelos vínculos de afeto e gratidão.
É também esposa e companheira há mais de 38 anos de um servidor que igualmente dedicou sua trajetória ao sistema prisional de Mato Grosso do Sul. Juntos, compartilharam não apenas a vida familiar, mas também os desafios, as responsabilidades e o compromisso com o serviço público.
Quando ingressou no sistema penitenciário, aos 22 anos, Maria de Lourdes Delgado Alves havia vivido pouco mais de duas décadas. Hoje, já dedicou ao sistema prisional praticamente o dobro do tempo que tinha vivido ao iniciar a carreira.
São mais de 40 anos atravessando os portões de unidades penais, participando de reuniões, enfrentando dificuldades, elaborando projetos, buscando parcerias e solucionando problemas. Em cada etapa, permaneceu presente a mesma disposição de construir oportunidades e acreditar que a mudança é possível.
Certamente, nem todas as histórias tiveram o resultado desejado. O trabalho no sistema penitenciário ensina que a transformação depende de muitas circunstâncias e, principalmente, da decisão de cada pessoa. Ainda assim, há algo que sempre pode ser oferecido: a oportunidade de estudar, aprender, trabalhar, profissionalizar-se, cuidar da saúde, reconstruir vínculos e retornar à sociedade preparado para fazer escolhas diferentes.
Foi oferecendo essas possibilidades que Maria de Lourdes Delgado Alves construiu grande parte de sua própria história: uma trajetória marcada por trabalho, conhecimento, perseverança e humanidade.
Por isso, o maior legado de sua vida profissional talvez não esteja apenas nos cargos ocupados, nos documentos assinados ou nos projetos registrados. Está também nas histórias modificadas ao longo do caminho: na pessoa que aprendeu a ler, concluiu os estudos, descobriu uma profissão ou conseguiu o primeiro emprego ao retornar à liberdade; na família que recebeu de volta alguém disposto a recomeçar; e em todos que encontraram uma nova possibilidade porque alguém acreditou em sua capacidade de mudança.
Mais de quatro décadas depois de atravessar pela primeira vez os portões do sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul, permanece viva a convicção que orientou sua caminhada: não existem políticas de reintegração social sem oportunidades, nem transformação sem pessoas dispostas a construí-las e a acreditar que uma nova história pode começar.
Essa é a trajetória de Maria de Lourdes Delgado Alves: uma mulher dedicada ao serviço público, uma profissional comprometida com as pessoas, uma gestora que construiu parcerias, uma professora que compartilha conhecimento e uma mãe de dois filhos do ventre e de muitos filhos do coração.
Acima de tudo, é alguém que fez de sua carreira uma missão: ajudar pessoas a encontrar caminhos para mudar suas histórias, fortalecer suas famílias e construir novas possibilidades para toda a sociedade.
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Confira as matérias do projeto “Som da Liberdade” (aqui) e "Salão de Beleza Expressão da Liberdade" (aqui), liderados por Maria de Lourdes com apoio do Instituto Ação Pela Paz. Veja também a reportagem no G1 do projeto de orientação jurídica, saúde e cultura a internas de Ponta Porã (aqui).
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Edição final: Marcos Ferreira

