Olhar Mais de Perto
Ninguém segura o nosso voo
Por Karen Brandoles
A moda é uma poderosa ferramenta de transformação, mas sua verdadeira essência vai muito além de tecidos e tendências. É uma forma de expressar identidade, contar histórias e, acima de tudo, promover mudanças significativas. Essa é a visão que norteia minha trajetória e a criação da Passarela Alternativa — uma ONG que costura novos futuros para mulheres presas, egressas e em situação de vulnerabilidade social.
Minha história começa em casa, onde aprendi com meus pais o valor da generosidade e do serviço ao próximo. Lembro da minha mãe, todas as quartas-feiras, dedicando seu tempo para atender pessoas vulneráveis na Zona Leste de São Paulo, montando e entregando cestas básicas com afeto, sensibilidade e dedicação. Lembro também do meu pai, que trazia para a mesa do almoço pautas que sensibilizavam o meu olhar — e o dos meus irmãos — com o coração mobilizador que sempre teve.
Esses momentos plantaram em mim os princípios de igualdade, respeito e justiça. Com um olhar atento, curioso e sensível, entendi que o impacto social começa no cotidiano, nas pequenas ações que, somadas, moldam um futuro mais justo. Aos 12 anos de idade, iniciei minha trajetória como voluntária e no serviço ao próximo.
Após cursar Moda, Marketing e Gestão do Terceiro Setor, meu caminho se cruzou com a justiça restaurativa, área na qual me especializei. Durante minha jornada como voluntária, em 2012, criei realizei o projeto “CPP Fashion Day”, um desfile de moda para mulheres no semiaberto de São Miguel Paulista. Naquele momento, percebi que a moda poderia ser uma ferramenta pedagógica potente de transformação — capaz de florescer dignidade e resgatar a autoestima daquelas mulheres, proporcionando uma nova perspectiva e uma nova rota de vida.
Foi ali, naquele espaço de uniformes bege e branco, entre paredes sem cor e grades cinzas, que enxerguei cores de esperança e vi minha vocação nascer. Encontrei propósito e senso de valor no brilho do olhar e na gratidão de cada mulher encarcerada naquele pavilhão. Por trás de cada presa, existe uma história que carrega um imenso potencial de renascimento. Foi a partir desse olhar que fundei a Passarela Alternativa, em 2018, após enfrentar um episódio emocionalmente desafiador, em que me vi "presa" em outras correntes — as da raiva, frustração, decepção e depressão.
Em uma das noites mais escuras que enfrentei, escrevi um texto com o título “Ninguém segura o nosso voo”. Ali, expressei todos os meus desejos de liberdade, potência, autonomia transcendência. Foi um clamor da minha alma, e fiz uma oração: "Senhor, transforma toda essa minha dor em novas vestes. Desejo voar livre e sem amarras, para que o meu coração pulse na mesma sintonia do Teu coração. "Finalizei com um amém, sem imaginar a dimensão do que estava pedindo. Hoje, entendo: a primeira pessoa que passou pela Passarela Alternativa voando alto e vestindo novas vestes com cores de esperança fui eu.
Como escreveu Audre Lorde: "Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas".
O simbolismo do voo
O voo representa o rompimento com amarras sociais, culturais e emocionais. Simboliza a conexão com a força interior — aquela que sempre existiu, mas foi silenciada por tanto tempo. Ninguém segura o nosso voo, porque ninguém mais tem poder sobre quem já descobriu o próprio valor.
Ninguém segura o nosso voo, porque ninguém mais tem poder sobre quem já descobriu próprio valor.
Voar é ultrapassar fronteiras, desafiar o esperado, romper com papéis pré-determinados. Mulheres que voam são aquelas que ousam ocupar espaços, desafiar padrões, existir fora da curva. Nosso voo sugere pluralidade. Não é uma mulher só — são muitas. É o voo de mulheres que se apoiam para ascender juntas, que entendem que a liberdade feminina é mais potente quando coletiva.
Como um bando de pássaros que migra junto: cada uma sustenta o vento para a outra. O voo vem depois da queda, do casulo, da dor. Ele representa o renascimento — mais forte, mais consciente, mais livre. Como a fênix, que ressurge das cinzas, mulheres que voam já foram queimadas, mas escolheram arder para renascer. Quem voa não precisa de estrada pronta. Cria sua própria rota no céu. "Ninguém segura o nosso voo” significa que não há limites predeterminados para o que somos ou podemos ser. A rota é nossa.
Moda com propósito
A Passarela Alternativa não é apenas um espaço para ensinar moda ou criar roupas; é um território de reconstrução. Aqui, mulheres que foram invisibilizadas encontram identidade e pertencimento. Cada peça que criamos é um testemunho de superação, um exemplo do que é possível quando se acredita na força transformadora da moda.
Utilizamos tecidos esquecidos, uniformes danificados e peças fora de circulação como matéria prima para algo totalmente novo. Assim como na moda do avesso, nossas histórias se entrelaçam em um processo de upcycling* emocional: cada traço de dor se transforma em beleza; cada desafio, em oportunidade.
Nosso trabalho na Passarela Alternativa vai além da técnica. Oferecemos uma formação integral, ensinando costura e moda, mas principalmente fortalecendo o aspecto socioemocional das mulheres. Geramos beleza, mas o que realmente entregamos é autonomia, possibilidade de renda e identidade.Cada aula se torna um exercício de pertencimento — uma chance de recuperar o espaço que lhes foi negado. Criei e seguimos uma metodologia 80-20: 80% do tempo é dedicado à teoria e prática dos conteúdos técnicos; 20% ao desenvolvimento humano — aprendendo a desaprender o que se sabe, a aprender a aprender, a aprender a fazer e, sobretudo, a aprender a ser.
Trabalhar com mulheres é desafiador, mas quando uma mulher se transforma, ela não apenas muda sua própria vida, mas também impacta seus filhos, sua família e sua comunidade. É um efeito cascata de transformação que reverbera na sociedade.
Um movimento que voa
Até agora, já atendemos mais de 18 mil mulheres. Cada uma carrega uma história única e, em nosso espaço, essas histórias são reescritas. Nosso foco não é o passado, mas o presente — e uma perspectiva consciente de futuro.
Não falo em ex-presidiárias ou ex-detentas, mas em mulheres que se reinventam, constroem novas narrativas e transformam suas real idades com consciência e, sobretudo, com autorresponsabilização. Acredito que cada uma delas é uma alternativa, uma possibilidade de mudança que, quando unida, não pode ser contida.
E são as histórias de transformação que me motivam a continuar nesse caminho desafiador, mas também cheio de arte, criatividade e beleza.
Hoje, a Passarela Alternativa representa um verdadeiro ecossistema de moda com propósito social. É onde a criatividade encontra a justiça, onde cada costura é uma afirmação de que ninguém segura o nosso voo. Juntas, somos mais que uma iniciativa — somos um movimento, um chamado à ação pela transformação social.
Acredito que, quando nos unimos em prol de um propósito maior, podemos costurar não apenas roupas, mas também futuros mais justos e dignos para todas as mulheres que cruzam o nosso caminho.
* Upcycling: processo de reaproveitamento criativo que transforma materiais descartados ou inutilizados em produtos com maior valor agregado — funcional, estético ou simbólico.

