Olhar Mais de Perto
O chamado para o amanhã
Por Amanda Amorim
Ainda quando estava na oitava série (nono ano, hoje em dia), já na ânsia de entrar no ensino médio pensando no vestibular, comecei a me questionar se queria cursar Direito ou Biomedicina. Queria atuar em algo que tivesse a ver com a área criminal, até mesmo pensando em ser perita, mas sem muita certeza de qual seria meu chamado.
Até que então eu, que lia somente por obrigação escolar (e ainda pulava páginas), tive contato com o primeiro livro "de adulto" que consegui ler até o final e com empolgação: "Capitães de Areia", de Jorge Amado. Enquanto lia, sentia algo diferente dentro de mim, uma identificação e empatia com cada um dos personagens.
Naqueles meninos marginalizados eu encontrava amigos de infância, vizinhos que conhecia desde a mais tenra idade, morando num bairro de conjuntos habitacionais (o Cohab Nova), onde tinha vivência com diferentes classes sociais e realidades. Foi aí que pude ouvir e sentir: ali estava o meu chamado.
Escolhi o curso de Psicologia acreditando que poderia estudar melhor as causas da criminalidade e contribuir intimamente com aqueles amigos à margem da sociedade. Desde meu primeiro dia de faculdade, já tinha claro que a psicologia jurídica era meu grande objetivo.
Graduada, agora precisava me debruçar na especificidade da área. Meu único pensamento era: vou fazer minha pós-graduação, trabalhar com o que me aparecer para poder pagar a formação e depois busco algo na área.
Me mudei para São Paulo e, mesmo aberta a transitar por qualquer emprego, busquei não me afastar do meu chamado, ainda que de forma voluntária. Foi aí que conheci o grandioso trabalho desenvolvido pelo Instituto Ação Pela Paz.
Mandei um e-mail pedindo para conhecer melhor as ações e fui calorosamente acolhida pela Solange Senese, diretora executiva da organização. Ver aqueles projetos lindos e com resultados tão expressivos era como se estivesse vendo os Capitães de Areia ganhando vida, como se visse cada personagem num participante. Fiquei encantada! Inclusive, atuei também como voluntária durante quatro turmas em unidades prisionais diferentes.
Pouco antes de resolver ir para São Paulo, enfrentei algumas crises de ansiedade desencadeadas pelo cenário de grande polarização política que se formava no Brasil com as eleições de 2018.
Os reiterados discursos totalmente avessos à proteção dos Direitos Humanos, propagados sem pudor — inclusive por pessoas muito próximas a mim —, me despertaram angústias das mais diversas.
Mas foi em meio a esse cenário que pude reencontrar uma amiga, a Silvinha, que me estendeu a mão e me ofereceu uma oportunidade de me juntar a outras pessoas com ideais parecidos com os meus. Elas estavam iniciando um grupo para levar o método desenvolvido pela Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) para o Mato Grosso.
Nesse grupo conheci uma mulher, a meu ver muito elegante, confiante de suas convicções e extremamente respeitada naquele meio. Nasceu uma secreta inspiração: mal sabia quem ela era, mas já sentia aquela voz lá no fundo, como se fosse o chamado novamente.
Nesse meio tempo, um amigo de infância que crescera comigo, infelizmente envolvido nos caminhos da criminalidade, faleceu num confronto com a polícia. Foi um acontecimento marcante e muito significativo para mim. Eu precisava continuar para que esse cenário não se repetisse com outros amigos, com outras famílias.
Mais tarde, iniciamos um grupo de estudos na casa dessa mulher. Eis que a pude conhecer: era a Dra. Josane Guariente, promotora de Justiça do Ministério Público do Estado de Mato Grosso. Confesso que não entendia muito bem o papel do Ministério Público, muito menos do promotor de Justiça.
Mesmo assim, desse encontro (ou talvez reencontro) surgiu o convite/desafio:
“Amanda, sei que você é psicóloga e estou pensando em criar um projeto que possa abordar o lado humano das pessoas privadas de liberdade, algo que as leve a refletir sobre a vida e suas escolhas.
Sinto que a oferta de qualificação profissional é essencial, mas trabalhar o ser humano é primordial. Você quer me ajudar a pensar nisso?”
Imediatamente, tudo se conectou. Os projetos que conheci no Instituto, meus planos de vida e, mais do que tudo, aquele chamado.
Iniciei de forma voluntária auxiliando na elaboração do projeto "Reconstruindo Sonhos", com o apoio de grandes e incansáveis parceiros, que faziam inúmeras reuniões em plena pandemia de Covid-19.
Em 24 de novembro de 2021, realizamos o primeiro encontro de abertura do projeto "Reconstruindo Sonhos" numa unidade prisional mato-grossense.
Até hoje, já foram 41 encontros de aberturas (mais quatro previstos para 2025), 29 unidades prisionais com o projeto aplicado e mais de 500 participantes que passaram pela iniciativa.
O "Reconstruindo Sonhos" possui duas fases: uma para ofertar qualificação profissional de acordo com o perfil socioeconômico do município e outra que promove espaços de reflexão de vida e ressignificação de vivências. Além disso, nosso projeto conta com a atuação ativa de voluntários da sociedade civil — já tivemos cerca de 70 pessoas envolvidas ativamente.
No momento, estamos trabalhando para que o Programa SEMEAR floresça em Mato Grosso. Já temos uma unidade-piloto e estou, também, envolvida nesse processo. Em 2025, assumi como Diretora-Presidente da APAC Cuiabá, ainda em processo de implantação.
Os desafios nessa seara são inúmeros e constantes. Mas, tendo os parceiros certos para enfrentá-los, vamos motivando uns aos outros, sempre com o olhar atento aos invisíveis: às pessoas privadas de liberdade e aos inúmeros chamados que recebemos.

