Olhar Mais de Perto
O impacto do prisional na minha vida
Por Giovanka Meira
Quando o assunto é psicologia e o que ela significa na minha vida, eu preciso voltar um pouco e falar do meu processo de formação.
Meu vínculo com questões sociais começou muito antes da graduação. Sempre houve em mim uma inquietação diante das desigualdades. Mas foi dentro da faculdade que encontrei ferramentas para lutar por isso. Com a psicologia, isso deixou de ser apenas indignação e passou a ser uma possibilidade concreta de transformação.
Minha formação foi diversa: escolas, UPA, pessoas em situação de vulnerabilidade, idosos. Cada experiência ampliou meu olhar e reforçou o peso que o social sempre teve na minha trajetória.
Porém, ao mesmo tempo, havia em mim uma certa rigidez. A defesa dos direitos das mulheres sempre foi central. E, durante muito tempo, eu dizia que não gostaria de atender alguém que tivesse cometido certos tipos de violência.
Até que, no último ano da faculdade, surgiu a possibilidade de estágio no sistema prisional. A primeira reação foi desconforto e incerteza. Mas algo em mim dizia que eu precisava viver aquela experiência. E eu fui.
Desde o primeiro contato, eu nunca mais saí.
Entender o que é o sistema prisional e o cárcere, de fato, rompeu minha bolha de uma forma que nenhuma teoria conseguiria fazer sozinha. Realidades cruas e profundamente humanas estavam diante de mim, e eu simplesmente precisei ampliar minha escuta.
Ali, minha atuação clínica mudou. Pude aprender, na prática, que as pessoas são sempre maiores do que seus atos. Que não somos seres rígidos. Que somos possibilidade e transformação.
E então veio a pergunta que mais me atravessou: o que é, de fato, liberdade?
Percebi que liberdade vai muito além de muros e grades. É possível estar fora da prisão e viver profundamente aprisionado: em ciclos, expectativas e culpas.
Com o tempo, compreendi também o impacto macro dessa atuação. Acompanhar pessoas e contribuir para que não reincidam é também contribuir com a segurança pública. É oferecer a possibilidade de reconstrução. Esse entendimento me fez revisitar a Giovanka do início, aquela que reproduzia uma moralidade rígida. Hoje, eu entendo que a forma como essas pessoas são retiradas da sociedade retira junto sua humanidade — e isso produz mais violência, não menos.
Quando eu digo a alguém que ele tem valor para além do crime, estou oferecendo a condição mínima para que essa pessoa assuma sua própria responsabilização e para que a possibilidade de transformação aconteça.
E hoje afirmo: sou psicóloga, não juíza. Sou alguém que precisou retirar dos próprios olhos uma falsa moralidade e assumir sua responsabilidade social.
Pessoas incomodadas incomodam. E eu me vi incomodada. O incômodo me ensinou que a responsabilidade é compartilhada. Hoje, estou no sistema prisional por escolha. Porque acredito que, se eu tenho a possibilidade mínima de abrir espaço para que alguém retome sua humanidade, eu vou fazer isso.
Porque acreditar na mudança não é ingenuidade. É responsabilidade.
Confira entrevista dos psicologos do projeto "Diálogos de Acolhimento":
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Edição final: Michel Mota sob supervisão de Marcos Ferreira

