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Realidades cruzadas

Por Dayane Martins
Dayane Martins - Foto: Marcos Ferreira | Ação Pela Paz
Dayane Martins - Foto: Marcos Ferreira | Ação Pela Paz

Minha história com o Instituto Ação Pela Paz e, consequentemente, com o sistema prisional se iniciou há dez anos.

A primeira vez em que ouvi falar do Ação Pela Paz foi na sala de aula, onde o professor Maurício Cardenete foi apresentar o projeto “Semeando Sonhos, Colhendo Realidades”. A proposta era que alguns de nós realizássemos o estágio obrigatório no Centro de Ressocialização de Limeira, onde o projeto estava sendo desenvolvido.

Eu me recordo que, ao ouvi-lo falar, fiquei curiosa e apreensiva ao mesmo tempo. O sistema prisional é estigmatizado e, na época, também era um ambiente com o qual nunca havíamos tido contato. Tratava-se de um novo campo de estágio. Tudo o que eu sabia sobre o sistema prisional vinha do que se ouvia nas notícias, nos jornais e nas conversas do dia a dia.

Antes de iniciarmos no projeto, fizemos uma visita para conhecer o local. Nesse dia, nos encontramos com Solange Senese, diretora executica e cofundadora do Instituto Ação Pela Paz, que se sentou conosco e contou a história de como o instituto havia nascido e também sobre o propósito do projeto do qual faríamos parte.

Validação nova versão do "Semeando Sonhos" com egressos (ex-participantes do projeto) em 2018 - Foto: arquivo Ação Pela Paz
Validação nova versão do "Semeando Sonhos" com egressos (ex-participantes do projeto) em 2018 - Foto: arquivo Ação Pela Paz

Fomos conhecer o espaço, e o diretor do estabelecimento penal pediu que alguns reeducandos se retirassem do alojamento para que pudéssemos realizar a visita. Eles saíam respeitosamente, de cabeça baixa, mantendo o olhar para o chão ou para a parede.

Essa experiência nos permitiu ver de perto a realidade e entender como funciona, de fato, a estrutura de um presídio.

Cordialmente, a diretora do Ação Pela Paz cumprimentava todos os reeducandos com um bom dia e perguntava se estava tudo bem. Mas não de uma maneira “mecânica”; havia acolhimento em sua voz e em seus gestos.

Isso ficou na minha cabeça por um tempo; perguntei-me se havia sido dessa forma só porque estávamos ali. Não era o tipo de tratamento que eu esperava ver sendo oferecido a eles, por puro apego a estereótipos. E essa atitude simples começou a desconstruir, aos poucos, muitas das ideias que eu tinha formado antes mesmo de conhecer aquela realidade.

O projeto tinha como objetivo preparar os reeducandos emocionalmente para quando ganhassem liberdade, promovendo reflexões, estimulando o autoempoderamento, a autorresponsabilidade e o desenvolvimento da consciência de si. Isso permitia desenvolver ferramentas para fazer as pazes com sua história de vida, com aquilo que não pode ser mudado, e estimulava a visualização de novas perspectivas de vida a partir dali.

Abertura do quarto ciclo do "Semeando Sonhos" no fórum de Limeira - Foto: arquivo Ação Pela Paz
Abertura do quarto ciclo do "Semeando Sonhos" no fórum de Limeira - Foto: arquivo Ação Pela Paz

O que mais me chamou a atenção foi a quantidade de reflexões profundas e significativas que aconteciam dentro daquela sala de aula em apenas três horas. Durante o intervalo, tivemos a oportunidade de conversar com uma das pessoas presas, que compartilhou um pouco sobre sua rotina dentro da unidade.

Aos poucos, fui conhecendo mais sobre aquele ambiente e percebi o quanto aquele espaço era um mundo à parte e o quanto de ideias, reflexões e coisas positivas podiam estar acontecendo ali dentro, sem que a sociedade civil tivesse qualquer conhecimento.

Em uma das supervisões, Luiz Mendes (escritor e egresso | 1952 a 2020 | assista aqui ao documentário sobre ele produzido pelo Ação Pela Paz), coautor do projeto junto com Maurício, disse que os reeducandos estavam “voando baixo”. Não de forma negativa, mas reconhecendo que eles estavam se entregando ao processo e alçando novos ares.

Os encontros sempre começavam com algum conteúdo que despertasse reflexão: uma música, um vídeo, uma dinâmica ou alguma provocação. A partir disso, eram feitas perguntas desencadeadoras que conduziam o projeto a reflexões profundas e potentes.

Foi fascinante assistir a esse projeto acontecer dentro de um lugar ainda desconhecido para mim e perceber quanto potencial as pessoas que estavam ali tinham.

Abertura do quarto ciclo do "Semeando Sonhos" no fórum de Limeira - Foto: arquivo Ação Pela Paz
Abertura do quarto ciclo do "Semeando Sonhos" no fórum de Limeira - Foto: arquivo Ação Pela Paz

Desde então, foi ficando cada vez mais clara para mim a importância da participação da sociedade civil e da Psicologia no processo de ressocialização.

Lembro que uma das primeiras orientações que recebemos foi a de não perguntar a nenhum reeducando qual crime ele havia cometido; afinal, não estávamos ali para julgar. Esse era o papel do juiz. Sendo assim, o importante para nós era que a pessoa estava disposta a ressignificar sua história, assumir a responsabilidade pela própria trajetória, pelas escolhas e pela vida que desejava construir dali em diante.

A cada dia, nos víamos ainda mais encantadas com o projeto, com as reflexões, com as histórias e com o impacto que aquela experiência estava causando não só nos reeducandos, mas em nós mesmas.

Esse encantamento me levou a continuar fazendo parte do projeto e a desenvolvê-lo em outros estabelecimentos penais e no Fórum de Limeira, com egressos. Cada experiência foi única e, desde que entrei para o time do Instituto Ação Pela Paz, sempre fiz questão de ressaltar o quanto acredito ser importante trazer cada vez mais a sociedade civil para perto, principalmente as universidades — mas não só o curso de Psicologia.

Supervisão do projeto "Semeando Sonhos" com Maurício Cardenete e Luiz Mendes em 2016 - Foto: arquivo Ação Pela Paz
Supervisão do projeto "Semeando Sonhos" com Maurício Cardenete e Luiz Mendes em 2016 - Foto: arquivo Ação Pela Paz

Acredito que a possibilidade de realizar o estágio obrigatório ou um trabalho voluntário dentro dos estabelecimentos penais pode contribuir muito com a nossa sociedade, onde todos os envolvidos saem ganhando: os privados de liberdade, com a oportunidade de se ressocializar e reconstruir sua vida; e nós, sociedade civil, com um mundo mais seguro.

Para isso, é necessário pensar na desestigmatização do sistema prisional. Fingir que as pessoas privadas de liberdade não existem ou achar que “é eles lá, e nós aqui” não contribui em nada para o nosso desenvolvimento como sociedade. Essas pessoas, cedo ou tarde, estarão novamente em contato conosco. A pergunta é: nós queremos que eles saiam melhores ou piores?

Se a resposta for a primeira alternativa, é preciso que nos engajemos para que isso aconteça.

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Edição final: Marcos Ferreira

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