Cultura e psicossocial
Teatro terapêutico leva reflexão e reconstrução de trajetórias a reeducandos em Hortolândia
Projeto baseado no psicodrama reúne duas turmas e atende cerca de 50 pessoas privadas de liberdade com atividades de expressão emocional e desenvolvimento psicossocial
O psicodrama, método terapêutico desenvolvido por Jacob Levy Moreno, utiliza o teatro como ferramenta de intervenção para promover saúde mental e reflexões socioeducativas. Historicamente eficaz no acolhimento de populações marginalizadas, a abordagem aposta na horizontalidade e na arte para atuar em ambientes complexos. Na prática, essa dinâmica acontece na Penitenciária III de Hortolândia, onde o psicólogo Pedro Oliveira aplica a metodologia junto a pessoas encarceradas, demonstrando a relevância histórica e atual da técnica para grupos em privação de liberdade.
Na unidade, o projeto de teatro terapêutico organiza encontros semanais em grupo, estruturados em duas turmas, com atividades que utilizam a dramatização como forma de expressão emocional e construção coletiva. Ao todo, cerca de 50 pessoas privadas de liberdade participam da iniciativa, distribuídas em grupos que se reúnem ao longo de ciclos de encontros para discutir trajetórias de vida, emoções e possibilidades de futuro.
A proposta vai além da atividade artística: os encontros criam um espaço de escuta e diálogo que rompe, ainda que temporariamente, com a lógica do ambiente prisional. Relatos dos participantes indicam fortalecimento de vínculos, desenvolvimento de novas formas de comunicação e reflexões que impactam relações familiares e projetos de vida. O projeto é realizado com apoio do Instituto Ação Pela Paz por meio do Programa SEMEAR.
Com histórico de aplicação desde 2023 na unidade, a metodologia tem demonstrado potencial na ressignificação de identidades e no estímulo ao protagonismo dos participantes. Ao favorecer a expressão de sentimentos e a construção de novas narrativas pessoais, o psicodrama se consolida como uma estratégia relevante para o desenvolvimento psicossocial e para a reflexão sobre caminhos possíveis fora do universo do crime.
Máscaras como facilitadoras de expressões
Um dos diferenciais do projeto é o uso de máscaras artesanais durante as atividades. Esses elementos funcionam como ferramentas simbólicas que facilitam a expressão de emoções e vivências difíceis de serem verbalizadas diretamente. Ao “vestir” uma máscara, os participantes encontram maior liberdade para acessar sentimentos profundos, experimentar diferentes papéis e se expor de forma mais segura no grupo. A estratégia também contribui para a desinibição e amplia as possibilidades de comunicação, permitindo que conteúdos subjetivos sejam trabalhados de maneira criativa e protegida, fortalecendo o processo terapêutico coletivo.
Programa SEMEAR
SEMEAR (Sistema Estadual de Métodos para Execução Penal e Adaptação Social do Recuperando) foi criado em 2014 por meio do provimento da Corregedoria Geral da Justiça do Tribunal de Justiça de São Paulo e tem como parceiros a Secretaria Estadual da Administração Penitenciária e o Instituto Ação pela Paz. O programa busca maior efetividade na recuperação dos presos, egressos e suas famílias.

