Cultura e psicossocial

Teatro terapêutico leva reflexão e reconstrução de trajetórias a reeducandos em Hortolândia

Projeto baseado no psicodrama reúne turmas de pessoas privadas de liberdade com atividades de expressão emocional e desenvolvimento psicossocial
Pedro Oliveira com reeducandos na PIII de Hortolândia - Foto: arquivo Pedro Oliveira
Pedro Oliveira com reeducandos na PIII de Hortolândia - Foto: arquivo Pedro Oliveira

O psicodrama, método terapêutico desenvolvido por Jacob Levy Moreno, utiliza o teatro como ferramenta de intervenção para promover saúde mental e reflexões socioeducativas. Historicamente eficaz no acolhimento de populações marginalizadas, a abordagem aposta na horizontalidade e na arte para atuar em ambientes complexos. Na prática, essa dinâmica acontece na Penitenciária III de Hortolândia, onde o psicólogo Pedro Oliveira aplica a metodologia junto a pessoas encarceradas, demonstrando a relevância histórica e atual da técnica para grupos em privação de liberdade.

Na unidade, o projeto de teatro terapêutico organiza encontros semanais em grupo, estruturados em duas turmas, com atividades que utilizam a dramatização como forma de expressão emocional e construção coletiva. Ao todo, cerca de 20 a 25 pessoas privadas de liberdade participam da iniciativa a cada turma, distribuídas em grupos que se reúnem ao longo de ciclos de encontros para discutir trajetórias de vida, emoções e possibilidades de futuro.

Foto: arquivo Pedro Oliveira
Foto: arquivo Pedro Oliveira

A proposta vai além da atividade artística: os encontros criam um espaço de escuta e diálogo que rompe, ainda que temporariamente, com a lógica do ambiente prisional. Relatos dos participantes indicam fortalecimento de vínculos, desenvolvimento de novas formas de comunicação e reflexões que impactam relações familiares e projetos de vida. O projeto é realizado com apoio do Instituto Ação Pela Paz por meio do Programa SEMEAR.

Com histórico de aplicação desde 2023 na unidade, a metodologia tem demonstrado potencial na ressignificação de identidades e no estímulo ao protagonismo dos participantes. Ao favorecer a expressão de sentimentos e a construção de novas narrativas pessoais, o psicodrama se consolida como uma estratégia relevante para o desenvolvimento psicossocial e para a reflexão sobre caminhos possíveis fora do universo do crime.

Foto: arquivo Pedro Oliveira
Foto: arquivo Pedro Oliveira

Máscaras como facilitadoras de expressões

Um dos diferenciais do projeto é o uso de máscaras artesanais durante as atividades. Esses elementos funcionam como ferramentas simbólicas que facilitam a expressão de emoções e vivências difíceis de serem verbalizadas diretamente. Ao “vestir” uma máscara, os participantes encontram maior liberdade para acessar sentimentos profundos, experimentar diferentes papéis e se expor de forma mais segura no grupo. A estratégia também contribui para a desinibição e amplia as possibilidades de comunicação, permitindo que conteúdos subjetivos sejam trabalhados de maneira criativa e protegida, fortalecendo o processo terapêutico coletivo.

No começo, os participantes resistiram à ideia. Para quebrar essa barreira, Pedro introduziu outros elementos antes de chegar à improvisação cênica. "Eu trouxe a poesia primeiro, eu trouxe o rap primeiro, para que eles entendessem o que eu estava fazendo ali", explica o psicólogo em entrevista ao G1 (confira aqui).

Programa SEMEAR


SEMEAR (Sistema Estadual de Métodos para Execução Penal e Adaptação Social do Recuperando) foi criado em 2014 por meio do provimento da Corregedoria Geral da Justiça do Tribunal de Justiça de São Paulo e tem como parceiros a Secretaria Estadual da Administração Penitenciária e o Instituto Ação pela Paz. O programa busca maior efetividade na recuperação dos presos, egressos e suas famílias.

avatar

ASSINE NOSSO INFORMATIVO

Leia Também

PODCAST