Olhar Mais de Perto

Um caminho para a reintegração e a segurança

Por Eduardo Casarotto
Eduardo Casarotto - Foto: divulgação
Eduardo Casarotto - Foto: divulgação

Todas as vezes que olho para o sistema prisional, sinto um choque dentro de mim: de um lado, o medo legítimo da sociedade pela segurança; do outro, a esperança de que cada ser humano possa encontrar uma chance real de recomeço. Por muito tempo, nos fizeram acreditar que esses dois caminhos eram incompatíveis. Mas eu aprendi – e vivi – que não só podem andar juntos, como precisam caminhar lado a lado. É isso que chamo de Humanização 2.0.

Acredito profundamente que a segurança verdadeira só existe quando a reintegração acontece de fato. E que só há reintegração quando a vida dentro dos muros é vista, desde o princípio, como espaço de crescimento, dignidade e transformação.

Desde Taylor e Ford, fomos ensinados, na história da administração, a olhar para as pessoas como peças de uma engrenagem. E sim, isso fez o mundo produzir mais rápido. Mas a que custo? Elton Mayo, com as Experiências de Hawthorne, nos mostrou que o ser humano não se move apenas por salários ou ordens — ele floresce quando sente que importa, que é visto, que tem valor.

Casarotto durante reunião do Programa SEMEAR - Foto: Lucas Claudiano | Imprensa TJSP
Casarotto durante reunião do Programa SEMEAR - Foto: Lucas Claudiano | Imprensa TJSP

Essa constatação ecoa na Virtologia, que nos lembra que uma das necessidades mais primitivas do ser humano é justamente ser reconhecido. Não há produtividade verdadeira onde não há respeito, não há saúde mental onde o ambiente sufoca. É por isso que tantas vezes o sistema é insuficiente: podemos oferecer programas de apoio, mas, se o contexto continua desumanizado, o ciclo de dor se repete – em forma de burnout, depressão, violência e descrença.

A Humanização 2.0 não é uma ideia abstrata. É um chamado para resgatar a dignidade em cada detalhe do sistema prisional. É entender que o cárcere não deve ser só contenção, mas também um lugar de reeducação, de reconstrução.

E para isso, sigo cinco filtros que guiam o meu olhar: é virtuoso quando significa tratar com respeito, firmeza e brandura; é sistêmico quando a humanização não pode ser um gesto isolado e precisa estar em todo o processo; é 360° quando o cuidado deve abraçar a todos — reeducandos, policiais, servidores, famílias e comunidade; e é flexível quando cada pessoa tem sua história, sua dor e seu ritmo.É Corresponsável? – Ninguém se transforma sozinho. A reintegração é uma construção coletiva.

Eduardo Casarotto - Foto: Michel Motta | Ação Pela Paz
Eduardo Casarotto - Foto: Michel Motta | Ação Pela Paz

Virtologia: restaurando vidas, cultivando virtudes

Quando alguém chega ao sistema prisional, carrega não apenas erros, mas também ausências — de afeto, de oportunidades, de virtudes. Muitos chamam isso de “falhas de caráter”. Eu prefiro chamar de lacunas que a vida deixou abertas.

É aí que a Virtologia se torna essencial. Ela propõe o cultivo de virtudes que podem reconstruir a personalidade: a Brandura, que suaviza a agressividade e abre espaço para o diálogo; a Responsabilidade, que ensina a assumir escolhas e consequências; a Humildade, que abre portas para o aprendizado; e a Ajuda ao Próximo, que desperta a empatia e o sentido de comunidade.

Chamo isso de Terceira Competência: a competência moral. Mais do que habilidades técnicas ou comportamentais, é o florescer das virtudes que marca a verdadeira evolução.

Eduardo conversando com reeducandos - Foto: divulgação
Eduardo conversando com reeducandos - Foto: divulgação

Sonho – e trabalho – por um sistema em que a segurança não seja apenas muros altos e portões de ferro, mas sim a certeza de que cada pessoa ali dentro está sendo cuidada para voltar melhor à sociedade.

Isso significa treinar policiais penais não só em disciplina, mas em paciência, respeito e humanidade; significa reescrever manuais internos para que cada regra seja também uma lição de responsabilidade e convivência; significa criar comitês de avaliação que olhem não apenas para o cumprimento das normas, mas para o crescimento moral; significa investir em saúde mental como prioridade absoluta; e significa até mesmo pensar no espaço físico – luz, acústica, ergonomia – porque até o ambiente pode ensinar sobre dignidade.

Não quero devolver à sociedade apenas alguém que “cumpriu pena”. Quero devolver um ser humano renovado, com virtudes como alicerces e um propósito vivo no coração. Quero ver policiais penais e servidores voltando para casa inteiros, com saúde física, mental e emocional preservadas, para abraçar suas famílias com paz.

Essa é a segurança em que acredito. Essa é a evolução social que me move. Mais do que prender, é hora de transformar.

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