Olhar Mais de Perto

Um outro caminho para a dor

Por Juberto Galdino
Juberto Galdino - Foto: arquivo pessoal
Juberto Galdino - Foto: arquivo pessoal

Eu sou Juberto Galdino, tenho 35 anos e nasci em Botucatu, interior de São Paulo. Minha infância foi marcada pela falta de abraço, carinho e atenção. Isso gerou um adolescente problemático e um adulto que precisou quebrar a cara várias vezes para aprender, pois, quando você não tem uma base familiar te apoiando, te educando e te orientando, as chances de dar certo na vida são mínimas.

Lembro do peso no estômago e da vergonha que passei uma vez que bati de porta em porta pedindo comida, porque meu pai e minha mãe não tinham condições.

Aos 4 anos, fui levado para o orfanato. A Casa dos Meninos se tornou meu lar por 10 anos. Ali aprendi a sobreviver, mas também a lidar com a ausência de uma família.

Aos 18 anos, perdi um irmão assassinado. A dor foi tão grande que precisei deixar minha cidade e tentar recomeçar em Curitiba. Foi nesse tempo que conheci o “Sopão”, um grupo que oferecia mais que comida quente: oferecia dignidade. Eles me acolheram como família, e ali nasceu em mim um chamado. Eu queria retribuir, queria lutar, queria estender a mão a quem sofria como eu já tinha sofrido. Dessa forma, dei os primeiros passos como ativista social, levantando a bandeira da prevenção às drogas e do combate à fome e à miséria.

Juberto Galdino e Solange Senese durante gravação para o piloto do podcast Olhar Mais de Perto - Foto: Marcos Ferreira | Ação Pela Paz
Juberto Galdino e Solange Senese durante gravação para o piloto do podcast Olhar Mais de Perto - Foto: Marcos Ferreira | Ação Pela Paz

Em 2017, voltei para Botucatu com um propósito: transformar minha dor em esperança. Foi então que fundei o Grupo REAGE. Desde então, levamos teatro, hip-hop, fotografia e rodas de conversa para as periferias. Já alcançamos mais de 20 mil pessoas com trabalho voluntário.

Hoje sou proponente do Projeto Supera, apoiado pelo Instituto Ação Pela Paz. Atuamos dentro das unidades prisionais com escuta ativa, oferecemos acompanhamento psicossocial para egressos e promovemos oficinas culturais para aqueles que enfrentam a difícil tarefa de recomeçar. Esse trabalho me mostrou que, mesmo nos lugares de maior dor, ainda é possível semear esperança.

Antes de me mudar para São Paulo, atuei no Conselho da Comunidade. Foi ali que conheci pessoas que mudaram o rumo da minha vida, como Maria Helena Orreda, que me apresentou o contato em São Paulo da Solange Senese e do Dr. Luiz Antonio Cardoso. A partir desse encontro, nasceram parcerias que continuam a gerar bons frutos.

Juberto Galdino - Foto: arquivo pessoal
Juberto Galdino - Foto: arquivo pessoal

Minha história poderia ter seguido por um caminho diferente. A fome, a violência e a ausência poderiam ter me empurrado para o crime. Mas eu escolhi outro rumo: o caminho do amor, da compaixão e da luta pelo próximo. Hoje, minha maior missão é usar minha própria vida como prova de que sempre existe a chance de recomeçar e de que ninguém, absolutamente ninguém, deve ser esquecido.

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