Unindo propósitos
Ação Pela Paz reúne voluntários e professores para fortalecer projeto para saúde mental e bem-estar
Encontro abordou estratégias e atuação dentro dos estabelecimentos penais
Por Michel Mota
Edição final: Marcos Ferreira
No último dia 14 de janeiro, o Instituto Ação Pela Paz promoveu um encontro estratégico voltado a escutar os voluntários do projeto "Diálogos de Acolhimento", realizado para pessoas privadas de liberdade. O evento, que aconteceu no Espaço Abrahão e Rosa, sede da organização em São Paulo, reuniu um grupo de psicólogos voluntários e estagiários, liderados por Maurício Cardenete, professor, especialista em psicologia e supervisor da iniciativa desde 2022.
Solange Senese, diretora executiva e cofundadora do Instituto Ação Pela Paz, conduziu a conversa e deu início à roda de debates sobre temas centrais que permeiam a discussão da diminuição da reincidência criminal. O time do Instituto também foi representado por Rodolfo Moreira, gerente de operações, Julia Guilomoto, coordenadora de projetos, e as analistas de projeto Dayane Bento, Maria Luisa Ohl e Neuda Martins. O principal objetivo da reunião foi promover o alinhamento institucional do projeto e captação de conhecimento com quem atua diretamente no sistema prisional.
Durante o encontro, foram entregues certificados de reconhecimento aos voluntários, simbolizando a importância do engajamento da sociedade civil na construção de políticas de segurança pública mais eficazes.
Desafios e o poder da escuta
A roda de conversa aprofundou reflexões sobre a complexidade do ambiente prisional e como aperfeiçoar os atendimentos. O grupo concluiu que, para o sucesso do projeto, é fundamental ter flexibilidade e leitura de contexto, criando rituais que fortaleçam o vínculo entre o Instituto, os voluntários e os estalecimentos penais.
O poder da escuta foi apontado como uma das ferramentas mais eficazes para a ressocialização (87% dos beneficiários de atividades psicossociais não reincidiram - veja mais informações ao fim da matéria). Giovanka Fogaça, uma das psicólogas voluntárias presentes, destacou a segurança pública como um campo de atuação vital para a qualidade de vida da sociedade. Outros participantes relataram como a experiência permite "furar a bolha" habitual de suas profissões, gerando debates internos sobre propósito e ego.
Parceria e produção intelectual
Maurício Cardenete ressaltou o papel do Instituto Ação Pela Paz como um facilitador essencial. "O Instituto abre portas para que o trabalho atinja o maior número de pessoas, facilitando processos administrativos", afirmou o supervisor.
Cardenete também é autor de dois dos 16 artigos do livro "O Instituto Ação Pela Paz e o Sistema Prisional - 10 Anos de Perseveranças e Conquistas (Giostri Editora / 2025): "Perseguindo horizontes: compartilhando vivências e reflexões à luz da psicologia" e "Reintegração social: para que e para quem?", este último escrito em parceria com a assistente social Cleide Coelho da Silva Santos, Chefe de Seção de Reintegração Social na Penitenciária de Piracicaba.
O encontro encerrou-se com a reafirmação de que o voluntariado é um nicho de desenvolvimento social ainda essencial para preparar o retorno digno das pessoas privadas de liberdade à sociedade.
O projeto
O “Diálogos de Acolhimento” foi concebido em 2022 pelo psicólogo Mauricio Cadernete, com a proposta de implementação em unidades prisionais do interior do estado de São Paulo. Com um modelo de fácil replicação, o projeto tem o objetivo de facilitar diálogos psicológicos em grupo, a metodologia busca promover a autorreflexão, o autocuidado e o fortalecimento das relações interpessoais entre os participantes, com foco na reintegração social no presente e no futuro. Até o momento, foram realizadas 23 turmas do projeto em sete estabelecimentos penais vinculados à Coordenadoria Central da Polícia Penal da Secretaria da Administração Penitenciária, todas com o apoio do Ação Pela Paz.
Os encontros ocorrem semanalmente, em formato EAD, em cada unidade prisional, e são conduzidos por voluntários — psicólogos ou estudantes do último ano de Psicologia. Atualmente, o projeto conta com 16 voluntários. Cada encontro é temático e desenvolvido de forma colaborativa com o grupo de reeducandos participantes. Ao término de cada turma, são realizadas reuniões com os parceiros para avaliação dos resultados e discussão sobre a necessidade de ajustes nos temas abordados.
Durante as reuniões de monitoramento, realizada pela equipe de analistas do Ação Pela Paz com as unidades prisionais, são compartilhados os resultados intermediários do projeto. Entre os principais avanços observados, destacam-se a capacidade dos reeducandos de identificar e compreender seus sentimentos, contribuindo para o fortalecimento de valores pessoais; o estreitamento dos vínculos familiares por meio do compartilhamento de experiências; o desenvolvimento da empatia em relação à dor do outro; e o fortalecimento do sentimento de apoio mútuo, fundamental para a reconstrução de projetos de vida em liberdade.
Impacto
Entre 2014 e 2025, o Ação Pela Paz apoiou 1.244 projetos em São Paulo e atendeu mais de 46 mil pessoas.
A 6ª aferição de reincidência criminal dos participantes do programa SEMEAR (Sistema Estadual de Métodos para Execução Penal e Adaptação Social do Recuperando) revelou que 82,06% dos participantes que deixaram o sistema prisional não retornaram por novo crime, até a última contagem realizada em setembro de 2025. O programa SEMEAR, desenvolvido em cogestão com o Tribunal de Justiça de São Paulo e a Secretaria Estadual da Administração Penitenciária, completou 10 anos em 2024.
O levantamento também apontou que 87% dos beneficiários de atividades psicossociais não reincidiram, e que 96% dos participantes de projetos de escuta ativa — ação vinculada à área da psicologia — não registraram reingresso no sistema prisional (veja mais detalhes em nossos relatórios de atividades - acesse aqui).
Para Solange Senese, a análise dessas informações é fundamental para identificar as evidências que sustentam os índices apresentados e compreender o contexto em que eles se formam. “Esses dados nos mobilizam a compreender os motivos pelos quais isso vem acontecendo e, acima de tudo, fazer um chamamento para que mais voluntários e universidades procurem o Ação Pela Paz a fim de desenvolverem mais iniciativas como essa”, pontua.

