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Entre a justiça, a escuta e a reintegração

Por Bárbara Rodrigues
Bárbara Rodrigues - Foto: arquivo pessoal
Bárbara Rodrigues - Foto: arquivo pessoal

Não por acaso, desde a infância fui uma criança curiosa e atenta às questões que envolviam justiça e sociedade. Filha de advogados, cresci em um ambiente onde debates jurídicos faziam parte da rotina. Meu pai, atuante na área criminal, frequentemente compartilhava histórias de casos e processos. Eu ouvia com interesse, mas minhas perguntas iam além da sentença, do delito ou da tipificação penal. Queria saber sobre as pessoas por trás dos autos: como estava aquela família? O que sentia aquela pessoa? Quais circunstâncias atravessavam aquela história? Os “porquês” sempre me mobilizaram, muito antes de eu decidir cursar Psicologia.

Ao ingressar na graduação, identifiquei-me rapidamente com a Psicologia Social e a Psicologia Jurídica, especialmente com a Psicologia Penal. Durante alguns semestres, perguntei-me de que forma poderia atuar junto ao sistema penal, como me aproximaria dos complexos prisionais e de que maneira teria contato com essa população historicamente estigmatizada.

A primeira grande oportunidade surgiu por meio de uma vaga de estágio pelo Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE, para atuação em uma Central de Penas e Medidas Alternativas. Permaneci nesse espaço por três anos, até a conclusão da graduação. Foi ali, entre processos, relatórios e atendimentos, que comecei a compreender de forma concreta o funcionamento da execução penal no estado de São Paulo.

Bárbara (ao centro), o professor Maurício Cardenete (à esqueda) e Dayane Martins (analista do Ação Pela Paz - à direita) - Foto: Michel Mota | Ação Pela Paz
Bárbara (ao centro), o professor Maurício Cardenete (à esqueda) e Dayane Martins (analista do Ação Pela Paz - à direita) - Foto: Michel Mota | Ação Pela Paz

Enquanto estagiária, dediquei-me a compreender as múltiplas vulnerabilidades que atravessavam as pessoas atendidas. O cumprimento de pena alternativa, embora seja um direito assegurado e não implique privação de liberdade, ainda carrega forte estigma social. Percebi que, para além do cumprimento formal da medida, era necessário oferecer um atendimento que não fosse meramente burocrático, mas verdadeiramente acolhedor, que reconhecesse a integralidade do sujeito que chegava ao balcão. Na execução penal, garantir direitos também significa enfrentar preconceitos, promover informação qualificada e construir pontes entre o programa e a sociedade.

Movida pelo desejo de aprofundar essa experiência, tornei-me voluntária em dois projetos apoiados pelo Instituto Ação Pela Paz. No projeto Nova Rota, voltado a egressos do sistema prisional, acompanho uma proposta que acredita na reintegração por meio da educação, oferecendo oportunidades de ensino técnico e superior, com monitoria e acompanhamento psicológico ao longo de toda a trajetória acadêmica. Testemunhar o protagonismo do egresso a partir do estudo é profundamente transformador. É acompanhar o resgate da autoestima, da esperança e da autonomia. É ver pessoas ocupando espaços que, historicamente, lhes foram negados com a mensagem implícita de que “esse lugar não é para você” — e afirmar, na prática, que agora é, sim.

Encontro com voluntários do projeto "Diálogos de Acolhimento", em janeiro de 2026, em São Paulo - Foto: Michel Mota | Ação Pela Paz
Encontro com voluntários do projeto "Diálogos de Acolhimento", em janeiro de 2026, em São Paulo - Foto: Michel Mota | Ação Pela Paz

Também atuo como psicóloga voluntária no projeto Diálogos de Acolhimento para Ressocialização, Vida e Trabalho (veja matéria sobre o encontro com voluntários aqui), desenvolvido em grupos com pessoas privadas de liberdade em regime fechado. Nesse contexto, pude escutar histórias marcadas por dores, rupturas e responsabilizações, mas também por desejo de mudança e necessidade de reconhecimento. Ainda que carreguem o peso de seus próprios atos, essas pessoas valorizam profundamente espaços em que possam ser ouvidas, acolhidas e convidadas à reflexão sobre suas escolhas e possibilidades. Enquanto houver possibilidade, haverá caminho.

Acredito em uma Psicologia comprometida com a técnica, a ética e a ciência, mas igualmente comprometida com a humanidade. Uma Psicologia que não se limita a rótulos ou a reduções simplificadoras, que possa acolher, mesmo quando os olhos se enchem de lágrimas. E que reconheça sujeitos para além de suas histórias criminais.

A reintegração social, para mim, não é apenas um discurso institucional. É um compromisso com a justiça social.

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Edição final: Marcos Ferreira e Michel Mota

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